Quando o governo anuncia que a inflação está sob controle, está falando do IPCA — o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE. O problema é que o IPCA mede a variação de preços de uma cesta de consumo que representa a média da população urbana brasileira. E a média, como todo estatístico sabe, pode esconder realidades muito diferentes.
Para uma família que ganha cinco salários mínimos, a inflação de 2024 foi de 4,8%. Para uma família que ganha até um salário mínimo, foi de 8,3%. A diferença não está nos números globais — está na composição do consumo. Quem ganha menos gasta proporcionalmente muito mais com alimentos. E os alimentos subiram muito mais do que o índice cheio.
A matemática da desigualdade inflacionária
O IBGE divulga, além do IPCA geral, um índice chamado IPCA por faixa de renda. Esse dado existe. Está disponível no site do instituto. Mas raramente aparece nas manchetes — porque as manchetes são feitas com base nos comunicados do Ministério da Fazenda, que destaca o número que fica melhor.
| Faixa de renda familiar | IPCA 2024 (%) | Variação alimentos (%) |
|---|---|---|
| Até 1 salário mínimo | 8,3 | 11,7 |
| 1 a 2 salários mínimos | 7,1 | 10,2 |
| 2 a 5 salários mínimos | 5,9 | 8,8 |
| 5 a 10 salários mínimos | 5,2 | 7,1 |
| Acima de 10 salários mínimos | 4,8 | 6,4 |
Os números da tabela acima foram calculados pela economista Luciana Pires, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos microdados do IBGE. Não são estimativas — são os próprios dados do governo, reorganizados de uma forma que o governo prefere não reorganizar.
Por que os alimentos sobem mais para quem ganha menos
Há dois fatores principais. O primeiro é a composição da cesta. Famílias de baixa renda consomem mais arroz, feijão, farinha, óleo de cozinha e carne bovina de segunda — itens que tiveram alta acima da média em 2024. Famílias de renda mais alta consomem mais serviços (que subiram menos) e produtos industrializados com maior elasticidade de substituição.
O segundo fator é o local de compra. Supermercados de bairros periféricos têm menor poder de negociação com fornecedores e menos capital para absorver choques de custo. O resultado é que o mesmo quilo de arroz pode custar 30% mais em um mercadinho da periferia do que em um hipermercado de bairro nobre — e a família que mora na periferia raramente tem acesso ao hipermercado.
"A inflação não é neutra. Ela tem endereço. E o endereço dela, no Brasil, é sempre o mesmo." — Luciana Pires, economista, Ipea
O que o governo poderia fazer — e não faz
Existem políticas conhecidas para reduzir a inflação diferencial por renda. Subsídios diretos a alimentos básicos, fortalecimento dos programas de alimentação escolar, incentivos a cooperativas de consumo em periferias. Nenhuma delas é nova. Algumas existem no papel.
O problema é que essas políticas têm custo fiscal visível e benefício difuso. É mais fácil, politicamente, anunciar que a inflação está controlada do que explicar por que ela está controlada para uns e não para outros.
Enquanto isso, a família que ganha um salário mínimo continua fazendo as contas no mercadinho da esquina, trocando carne por ovo, ovo por farinha, e tentando entender por que o noticiário diz que tudo está bem.