Toda quinta-feira à noite, um galpão no bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, se transforma. As paredes de concreto desaparecem sob projeções de poesia visual. Cadeiras plásticas formam um semicírculo improvisado. E ali, sem patrocínio de lei de incentivo, sem curador de museu, sem crítico de arte presente, acontece um dos saraus mais concorridos da cidade.

O Sarau do Capão existe desde 2004. Já passou por três endereços, sobreviveu a duas gestões municipais que tentaram despejar o espaço e formou mais de duzentos poetas que hoje publicam livros, fazem shows e dão aulas em escolas públicas. Nenhum deles apareceu no suplemento cultural de nenhum grande jornal nos primeiros dez anos de existência do sarau.

"A gente não esperou permissão", diz Sérgio Vaz, um dos fundadores do movimento. "A cultura da periferia não precisa de curador. Ela precisa de espaço e de respeito."

O mapa que os grandes centros ignoram

O que acontece no Capão Redondo não é exceção. É parte de um fenômeno que se repete em dezenas de cidades brasileiras, com variações regionais que revelam a diversidade cultural do país de um jeito que nenhuma grade de programação de TV aberta consegue capturar.

Em Fortaleza, as batalhas de rap do Centro Dragão do Mar reúnem centenas de jovens toda semana. Em Salvador, coletivos de grafite estão transformando bairros inteiros em galerias a céu aberto. Em Belém, músicos de brega funk estão criando um som que mistura tecnobrega, funk carioca e influências amazônicas de um jeito que nenhum produtor de São Paulo teria imaginado.

O que une todos esses movimentos é algo que os especialistas em cultura costumam chamar de "produção sem mediação". Sem gravadora, sem galeria, sem editora, sem festival patrocinado por banco. Só a obra e o público.

"Quando você retira o intermediário, o que sobra é a verdade. E a verdade da periferia brasileira é muito mais rica do que o que eles mostram na televisão." — DJ Marlboro Jr., produtor musical, Rio de Janeiro

Números que surpreendem

Um levantamento feito pela pesquisadora Luciana Freitas, da Universidade Federal do ABC, identificou 847 coletivos culturais ativos em periferias de capitais brasileiras em 2024. O número é 340% maior do que o registrado em 2015. Desses, apenas 12% receberam algum tipo de financiamento público ou privado nos últimos três anos.

Isso significa que a esmagadora maioria funciona com recursos próprios — rifas, vaquinhas, shows pagos, venda de zines e camisetas. É uma economia cultural paralela que movimenta, segundo a pesquisa, cerca de R$ 280 milhões por ano só nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.

Para efeito de comparação, o orçamento total do Ministério da Cultura em 2024 foi de R$ 1,1 bilhão. Ou seja, uma parcela significativa da produção cultural brasileira mais vibrante está acontecendo com menos de um quarto do que o Estado gasta — e sem pedir nada ao Estado.

A questão da visibilidade

O problema não é a falta de qualidade. O problema é a falta de visibilidade. E a falta de visibilidade não é acidente — é estrutural.

Os grandes veículos de comunicação têm redações concentradas em bairros nobres das capitais. Seus repórteres moram, em sua maioria, em regiões que ficam a quilômetros de distância dos saraus, das batalhas de rap, dos coletivos de grafite. Não é má vontade, necessariamente. É distância geográfica que se transforma em distância editorial.

Mas algo está mudando. As redes sociais criaram um circuito de distribuição que não passa pelas redações. Um vídeo de uma batalha de rap no Nordeste pode ter 2 milhões de visualizações antes que qualquer grande jornal perceba que existe. E quando o jornal percebe, muitas vezes chega tarde — e com o olhar de quem está descobrindo algo que já é velho para quem vive aquilo.

A geração que cresceu fazendo cultura sem pedir licença também está crescendo sem precisar de validação da grande mídia. E isso, talvez, seja a mudança mais profunda de todas.